É fácil seguir os outros. Seus costumes, suas idéias. Copiar os sonhos e adaptá-los á sua própria vida. Vestir o que todos vestem, pensar o que todos pensam. É fácil ser como todo mundo. Não é preciso inovar, nem ser original. Não é preciso nem mesmo raciocinar. Trancar as próprias idéias e anseios num baú velho e esquecer que ele existe. Escondê-lo num lugar tão oculto que será preciso muito esforço pra lembrar onde ele pode estar.
Não dá trabalho ser igual. A direção aponta em todas as partes, basta seguir as placas. Se perder é impossível, e assim não há confusões de personalidade, apenas a certeza daquela que ali está - mesmo que não seja real. Fazer da vida um espetáculo teatral é muito mais fácil do que descer do palco e encarar os rostos da platéia de frente. As críticas jamais são ouvidas, e assim o medo de errar jamais transparece. Se por acaso tropeçar e cair, a personagem finge que aquilo faz parte do roteiro. Todas as falas são ensaiadas, todos os figurinos são minuciosamente experimentados e todas as caretas aperfeiçoadas na frente do espelho luminoso do camarim.
Difícil é seguir as próprias metas, seguir os próprios sonhos. Esse papinho clichê dos poetas e piegas. O mundo é dos espertos e os burros buscam a felicidade seguindo os próprios caminhos. Tolos! Já deviam saber que o caminho é árduo. Que as pedras nas quais vão tropeçar machucam, fazem sangrar. E sangrar dói. A dor não pode existir. O esforço tem de ser mínimo. Não existe recompensa para o esforço, continuaremos com a nossa ambição, de qualquer forma.
Não importa que sejamos capazes, o conforto e o comodismo é o que vale. Estaremos felizes se tivermos nossos materiais. Jamais ficaremos desamparados, Deus olha por nós. Ainda que sejamos autossuficientes demais pra precisarmos dele.
Não faremos mal algum a nenhum ser - a menos que ninguém saiba. A menos que todos os olhos sejam cegos. O coração não sentirá se fingirmos prazer quando sentirmos as dores. Tudo o que acontece de ruim serve pra ser apontado e mascarado; as lições nós aprendemos quando crianças, com canetas, cadernos e apostilas. As regras servem pra serem seguidas e quem desobedecê-las será punido por Deus, irá para o inferno, não terá redenção nem direito a julgamento - esse já está sendo feito, os grandes decidem. Todos querem ser grandes e essa disputa faz de nós humanos vorazes, guerreiros e temidos diante do resto. O que é o resto? Bem... Só não sabemos pra quem precisamos provar nossa garra, mas não ousamos parar com nossa batalha, não podemos transparecer fraqueza nem por um segundo sequer; lágrimas sinceras são coisas simples demais, e os bravos não choram, devemos ser magníficos, gloriosos, vencedores!
Afinal o que significam todas essas questões? Não importa, não precisamos delas. Nossa própria essência se resume ao que satisfaz nossos desejos momentâneos e aparentemente supérfluos. Desde que saibamos quais desejos são, tudo está em paz.
Desde que saibamos o significado da paz.

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